XIPU PURI
Era noite. A lua, como o olho de um peixe grande, se movia no céu, por ordem de Dokora. A floresta não dormia, e, seu guardião, Ñawera, ouvia a tudo...
Um menino que nasceu do sopro de uma antiga jararaca caminhava por todo o território. Seus pés, quando tocavam o chão, deixavam rastros de luz sobre as folhas mortas. O menino caminhava em silêncio, carregando nas mãos um vaso de barro cheio de nomes. Os mandjira dos taheanta que os brancos tiraram dos antigos Puri, para manter apenas as coisas de sua própria tradição. No meio do caminho, a vó serpente, apareceu, com seu corpo cor de rio escuro e de terra, se movendo pela mata com o ventre cheinho de sonhos. Ela se virou para o menino e perguntou:
“Ocê veio buscá sua língua ou seu ispíritu?”
O menino não respondeu. Apenas mostrou o vaso e os nomes correram para as montanhas . A antiga serpente sorriu. Seu riso relampeou como um trovão, fazendo estremecer todo o corpo.
“Então ocê já sabe: não tem força sem espírito, e não tem língua sem território.”
Então, a velha serpente se enfiou no meio da terra vermelha, se prendendo nas raízes das mais antigas árvores, e começou a morder as cidades por baixo.
O mundo todo começou a tremer...
Construções caíram, lampiões gemeram e as cercas de aço viraram pó. Onde antes havia asfalto, cresceram novas árvores; e, os bichos que estavam sumindo, voltaram a beber água no rio e a brincar entre os cipós.
O menino que viu tudo seguiu seu caminho, sorrindo. Suas pegadas viraram brotos de milho e seu canto ainda ressoa junto ao maracá dentro do peito do mundo...
Xipu Puri.
Abiayala, 05 set. 2025.
Publicado originalmente pela Revista LEETRA Indígena (v. 26, n.1, 2025).
XAMUN PURI
Day gran axe kua day cidade xamunrun muya xamunle naxayra axe. Day okora, xipu prika hon mligapele kohãnon kapuna, drone, helicóptero, avião. Pañikeyuñun kwaytikindo muya tate, makin omle kara he omle yamoeni iklakon tope tximeon prika ï bra tope mireteteno. Makin pañikeyuñun krim hon day gran axe, hon day iklana txemin, hon day xamunle ansehon orun xamun. Man toxeta bokua arekintekema kohãnon ñamantuza prika yamoeni cidade ando maxe nat yuñun tembono maxeom. Daykaya man xamunle kara, ne toxeta pa facções mligape prika, ne toxeta pa kapuna prika day okora, ne toxeta pa krim tximeon dutanama day axe. Man toxeta brotxen dutana erekema merixegrandjena yamoemi rayon prika ando brotxen pewa pañike krim. Pañikeyuñun taheanta prika hon arekintekema pañike ganden xamunrun. Krim yamoeni he txama, sate, iklana kohãnon taheanta. Hon pewa kohãnon naxayra day axe.
Nessa terra de pedra da cidade, a grande serpente quer serpentear embaixo da terra. No céu, os pássaros estão guerreando com tiro, drone, helicóptero, avião. Nosso kwaytikindo quer respirar, mas o ar aqui é o ar que proíbe as línguas indígenas para permitir a língua do dinheiro. Mas nosso sangue está nessa terra, está na lembrança do povo, está no serpentear da grande serpente. Ela subirá unida com os rios que a cidade comeu por causa de sua fome devoradora. Quando ela serpentear aqui, não haverá guerras de facções, não haverá tiros no céu, não haverá sangue de indígena derramado na terra. Ela derrubará toda fronteira que os não-indígenas fizeram sobre nosso sangue. sangues ancestrais estão unidos a nós pela grande serpente. Sangue que é animal, irmão, lembrança e ancestral. Está acima e embaixo da terra.
Abiayala, 24 Jul. 2025.
XIPU PURI
De primeiro, quando os troncos das árvores eram tão largos que podiam abrigar uma família inteira, vivia, no meio da Mata Atlântica, um jovem Uiraçu. Suas asas eram com uma tempestade contida e, seus olhos, duas luas negras, podiam enxergar quase tudo que se movia no chão da floresta, enquanto cortava as nuvens. De tão alto que voava, o Uiraçu pensava que conhecia tudo. De seu canto no céu, via o caminho da jiboia, da jaguatirica e os braços da preguiça. Uiraçu via a terra beber a chuva, o sol secar a terra... Era como se o mundo todo fosse um mapa e ele fosse seu maior conhecedor.
"Vocês, que rastejam e se escondem sob as folhas, conhecem apenas fragmentos de tudo que só eu, do alto, posso compreender."
Mas, um dia, algo mudou. A floresta ficou em silêncio e o canto do Uirapuru desapareceu. O silêncio que se instalou era espesso, não trazia paz, nem sossego. Os rios corriam estranho, as flores se abriam com reservas. A floresta recolheu seu canto.
Confiante, entretanto, o Uiraçu bradou aos outros animais: "Nada escapa aos meus olhos. Eu encontrarei o canto onde quer que ele esteja e trarei o som da floresta de volta.."
E, então, Uiraçu partiu…
Primeiro, mergulhou em direção aos muriquis. Eles se abraçavam, dividindo o calor e um misterioso silêncio.
"Onde está o som da floresta?" – perguntou o Uiraçu, impaciente.
O mais velho dos muriquis respondeu sem soltar seus irmãos: "A canção, Uiraçu, não é algo que se vê... É algo que se sente! Ela nasce do espaço entre “um” e “outro”. Talvez o silêncio peça que nos abracemos mais."
O Uiraçu então zombou daquela sabedoria: "Tola criatura que não conhece o mundo além do seu galho", e alçou voo. Mais adiante, encontrou uma cobra-coral, que deslizava para dentro de um buraco na terra.
"Você, que só conhece a escuridão viu para onde foi o som?" – indagou o Uiraçu.
A serpente, num sussurro, respondeu: "Os sons mais profundos, Uiraçu, vêm de dentro, do silêncio que pulsa do coração da Terra."
"Bobagem, criatura rastejante!” – esnobou o Uiraçu, subindo aos céus, irritado com as respostas.
Por fim, procurou por uma preguiça-anciã, que vivia suspensa numa embaúba há muitos verões; tantos que os animais todos já haviam perdido a conta. Seus movimentos pareciam fazer parte do crescimento da árvore.
"Preguiça-anciã! Você, que é tão velha quanto as pedras, diga-me, para onde foi o som." – ordenou Uiraçu.
A velha preguiça piscou, num movimento que durou o tempo que Dokora criou um terço do mundo, virou a cabeça e sorriu: “Ôoo, Uiraçu… De graaaandes aasas... Ocêee procura com os oolhos. Paare de oolhar. Paaree de procuraar. Apenas pouuse..."
A fúria tomou conta de Uiraçu. Ele se recusava a aceitar que não havia um ponto no mapa. Num ato de soberba, o Uiraçu decidiu então voar mais alto do que qualquer outra ave já voou em todos os tempos, muito acima da grande floresta, convencido de que a resposta estaria na vastidão.
Subiu, subiu, subiu! O ar se tornou rarefeito, o sol já queimava suas penas. Lá de cima, a floresta que ele julgava tanto conhecer com os olhos se tornou uma grande mancha verde e disforme. Ele não conseguia mais distinguir a jiboia da jaguatirica, o muriqui da preguiça. Via tudo, mas não enxergava nada. Foi então que ele notou o movimento de sua própria sombra, um ponto minúsculo sobre a mata.
O ego de Uiraçu se quebrou. Sua visão, tão boa, o havia corrompido por inteiro...
Triste e envergonhado, desceu. Não com a velocidade do caçador que era, mas com a suavidade de uma pena carregada pelo vento. Pousou num galho ao lado da velha preguiça e ficou em silêncio. Não procurou, não perguntou, apenas sentiu. Sentiu a vibração da seiva correndo sob suas garras, sentiu a brisa que carregava o cheiro de terra molhada, ouviu ao longe o movimento dos muriquis…
O Uiraçu pela primeira vez em toda sua vida sentiu que fazia parte de algo.
Quando o primeiro raio de sol tocou o topo das árvores, um som bonito brotou do silêncio. Era o Uirapuru! Uiraçu fechou seus olhos. O canto do Uirapuru parecia puxar uma canção de toda a floresta em que cada coisa era um filamento na imensidão do mundo. O conhecimento não estava apenas no céu, mas na relação entre a cobra e o chão, o macaco e seu irmão, a preguiça e seu tempo. Na diferença entre um voo e um rastejo, entre a tempestade e a quietude. O conhecimento parecia estar na própria Terra. E Uiraçu, rindo de si, se viu como parte de tudo.
Xipu Puri.
Abiayala, 17 Jul. 2025.
XIPU PURI
Por muito tempo, meu espírito buscou rumo. Mas eu o encontrei, por meio de um eco oriundo de terras distantes, com Quetzalcoatl. A Serpente Emplumada me tocou de uma forma que eu não podia ignorar. Seu simbolismo refletiu em meu espírito, me levando ao encontro da história de minha própria gente, me ensinando a ler os sinais de dentro e a considerar as memórias de minha família que minavam do tempo e que diziam sobre o meu próprio chão. Seu templo tocava a imagem de meu próprio ser fragmentado, e, ante tudo o que me circundava, que insistia em podar bem rente ao chão o que brotava de minha raiz, me colocou diante da voz dos meus antigos (taheanta), que me chamavam para si. Sou Puri. Assumi minha existência como expressão de uma continuidade, ao compreender que a retomada é o próprio movimento da Grande Serpente, inscrito entre as montanhas que cantam junto aos rios que banham nosso antigo território. Porque sei que a retomada é um movimento de que faço parte antes mesmo de eu vir ao mundo; a parte que tenho com os antigos constitui o meu humano e minha inscrição no tempo é manifestação viva de um conhecimento sobre o mundo que retorna. Quetzalcoatl me mostrou o caminho da Grande Serpente, que me trouxe o entendimento de um sonho antigo que aviva todo o nosso povo, que volta a cantar alegre de novo.
A sobrevivência de referências culturais antigas nas sociedades do México e do Brasil demonstra como os povos indígenas e seus descendentes continuam a habitar, cuidar e significar as terras de seus ancestrais. Em ambos os territórios, onde hoje se erguem cidades, rodovias e centros turísticos, pulsa um tempo outro, ancestral, orgânico e diverso, que se vincula a tradições e pertencimentos que fugiram ao controle do Ocidente. No México, a manutenção de Quetzalcoatl como um símbolo sagrado mostra que as raízes não foram arrancadas: o que cresce delas se adaptou, mas segue brotando. Em Teotihuacan, Cholula e tantas outras regiões, povos indígenas reivindicam o direito de cultuar em seus templos, tensionando concepções de "patrimônio histórico". Assim como os antigos templos não são apenas ruínas, nossos corpos e territórios não são restos de culturas passadas: são presenças contínuas de mundos que nunca deixaram totalmente de existir. E é por isso que a arte, as línguas, os rituais e os sonhos são fios condutores de um tempo outro; um tempo que se vincula ao nosso sagrado, a nossa humanidade, aos mortos e os vivos num mesmo sopro.
Quetzalcoatl desceu ao Mictlan para resgatar os ossos de gerações passadas. Mictlantecuhtli tentou impedir Quetzalcoatl de escapar com os ossos, que ao tentar fugir tropeçou e acabou quebrando os restos mortais que havia tomado consigo. Ao retornar do submundo, desolado, entregou os estilhaços à Cihuacoatl (Mulher Serpente), que os moeu em uma tigela. Quetzalcoatl sangrou sobre o pó resultante, misturando seu próprio sangue com os restos mortais e milho. Assim teria nascido a humanidade do quinto sol. Entre os Puri, entretanto, o sangue que a terra bebeu com dor, é o mesmo que corre em nossas veias e dele veio uma Grande Serpente. Nós chamamos os antigos e os alimentamos com nossos kanaremunde (cantos), que nos dão força para caminhar na vida. Nós honramos os taheanta com suas palavras, fazendo de suas memórias nosso maior bem nesse mundo. Cihuacoatl recebeu os estilhaços de ossos e os moeu para dar forma aos humanos. Em nossa terra a Grande Serpente é a memória encarnada de nossa dor, símbolo de nossa recusa em desaparecer. Nossas histórias sagradas, entretanto, embora ecoem uma na outra através do símbolo poderoso da serpente, tomam caminhos distintos, na jornada única de cada nação sobre seu território. Acho que compreendo agora... Meu espírito estava em estilhaços, como os ossos que Quetzalcoatl deixou cair em Mictlan. E por muito tempo, acreditei que precisaria de muito mais do que o próprio sangue para ser indígena por inteiro. Mas a Serpente Emplumada me mostrou o caminho da Serpente de Sangue, que me ensinou que a memória de meu povo serpenteia em meu corpo e sob o chão.
Xipu Puri.
Abiayala, 10 Jul. 2025.
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